FLAP 2007: CONTAMINAÇÕES


sobre a FLAP 2006

FLAP: Uma bofetada na Indiferença*

Por Elisa Andrade Buzzo, 10.08.2006 

Publicado originalmente no Digestivo Cultural  aqui

Uma garoa fria e insistente envolveu o centro de São Paulo no último fim de semana de julho. O que não impediu que mesinhas fossem acomodadas na calçada de sebos e bares da Praça Roosevelt. Também não impediu que um grupo animado se reunisse em torno da FLAP!, no teatro Espaço dos Satyros, para debater literatura em ritmo de noite desregrada regada à garoa e cerveja geladas.

Para quem não sabe, FLAP! não tem um significado determinado, embora pareça ter um posicionamento definido. Organizada pelo grupo de jovens escritores do Projeto Identidade, é um evento literário que nasceu em julho de 2005 como um contraponto à FLIP (Festa Literária Internacional de Parati).

O tema deste ano foi Embates, com o intuito de, segundo texto de divulgação do grupo, “evitar uma certa acomodação de opiniões nas mesas de discussão, quando todos parecem concordar com todos e as discordâncias acabam sendo relegadas ao plano da fofoca.” Neste ano a FLAP! cresceu e ganhou vida própria também no Rio de Janeiro. O evento com o mesmo nome aconteceu nos dias 22 e 23 de julho na UniverCidade (Unidade Ipanema), contando com a participação de Chacal, Afonso Henriques Neto, Claudia Roquette-Pinto, Virna Teixeira e Marcelino Freire, dentre outros escritores. A cobertura do evento no Rio pode ser conferida no Armazém Literário.

Quem não chegou às 9h do dia 29 de julho teve que procurar um lugar no chão ou mesmo nos colchonetes azuis colocados nas laterais do escuro confortável do Satyros I. A impressão é a de que sempre haverá espaço para todos, como uma ampla mesa de infinitas cabeceiras. O público vai se acomodando aos poucos e o ambiente do palco se transforma em aconchego de jantar à luz de velas. O poeta e estudante de Letras Eduardo Lacerda ressaltou logo na primeira mesa, “Arena Livre: onde estamos?”, a possibilidade de a FLAP! incitar a superação do “tapinha nas costas”, prática comum em discussões sobre literatura contemporânea, de se aceitar tudo; mas sem precisar de “amizades ou inimizades”.

Na mesa também estava presente Frederico Barbosa, poeta e diretor do Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura (Casa das Rosas), reiterando que hoje se está no politicamente correto, enquanto os embates são salutares. Ainda assim, disse que descobriu bons poetas na internet e acredita que se faz hoje no Brasil uma poesia rica.

O crítico literário e colunista do jornal Folha de S. Paulo, Manuel da Costa Pinto, seguindo o tema “Onde estamos?”, afirmou a inexistência de “um ponto de vista uniforme com o qual você julga o panorama literário”. E ainda que a perturbação que se vê hoje, ou crise, se assim podemos dizer, é “em relação ao não-acontecer”, a literatura, e mesmo a cultura de modo geral, estaria “num momento de tomada de consciência de sua impotência.”

Hoje a gente vive essa anomia, da falta de vibração, de abalos sísmicos, no sentido de que a literatura deveria ter um alcance transformador.
(Manuel da Costa Pinto)

A mesa ainda contou com a presença do advogado e poeta Tarso de Melo lembrando que “a exploração da linguagem cotidiana pode ser mais ruptura do que outras radicalizações.”

O escritor e jornalista Xico Sá falou da fissura pela publicação em papel, “em se materializar no mundo do Gutenberg.” Cita a internet, da mesma forma que Fred Barbosa, como uma ferramenta capaz de trazer vozes além do eixo Rio-São Paulo. E percebe, desde o começo de sua carreira como jornalista em Recife, o espaço da crítica nos jornais impressos rareando.

A segunda mesa do sábado, com o tema “Periferias?” e mediada pelo jornalista e prosador Bruno Zeni, teve a presença dos escritores Ferréz, Allan da Rosa, André du Rap e Sérgio Vaz, poeta e organizador do Sarau da Cooperifa. Sérgio apontou um movimento interessante que está acontecendo em São Paulo: o centro se deslocando até a periferia, a exemplo da Cooperifa.

Viver na periferia não tem glamour, mas tem valor, tem brilho.
(Allan da Rosa)

O cineasta Sérgio Bianchi alertou sobre “valores básicos que tanto a elite quanto a classe baixa estão jogando fora.” Já André du Rap falou sobre o papel da literatura e do rap como agentes de igualdade, e também da periferia como um local de talentos ao invés da recorrente imagem de palco da destruição.

A poesia está mais viva no lugar em que você está do que nas livrarias.
(Ferréz)

A mesa de discussão da tarde, “Gestão de políticas culturais”, realizada no palco do Satyros II, foi mediada pelo poeta Victor Del Franco e dela participaram a vereadora Soninha Francine, o poeta Ademir Assunção e Donny Correia, coordenador cultural da Casa das Rosas.

Ainda frio e chuvoso, o segundo dia da FLAP! trouxe para a mesa de abertura, de título aparentemente incompreensível, o poeta Cláudio Willer, que falou sobre “um débito cultural que tem de ser sanado com um apoio público.”

O poeta Claudio Daniel apontou que não está sendo feita pela crítica uma reflexão mais profunda, nem estariam sendo levadas em conta contribuições pessoais na poesia contemporânea. “Etiquetando, rotulando, é fácil colocar tudo dentro de gavetas”, disse. Ainda indicou a falta de movimentos literários no país hoje, “pelo menos no sentido tradicional” e considerou importante a busca de um repertório poético pessoal com sinceridade e personalidade.

O jornalista e escritor Marcelo Rezende reiterou que vivemos no país um momento de “crise de qualidade, de produção, de crítica e Estado” em que há uma ausência não só de contato com a produção contemporânea, como também de projetos literários. “É muito curioso que o mercado parece excitado com a idéia de se criar um movimento [literário]”, e acredita que isso é muito perigoso, pois é “sedutor para quem consome e para quem produz.”

Marcelo foi um dos poucos convidados da FLAP! a questionar o tipo de ambição presente na cena literária brasileira hoje e uma suposta vitalidade da prosa contemporânea. “Acho que seria interessante quem produz hoje exercer a autocrítica e ver de que maneira dialoga com seu tempo ou é refém do lugar-comum criado pelo mercado.”

Nós saímos do exotismo da mulata brasileira paro o exotismo da violência brasileira.
(Luiz Ruffato)

Já o escritor Luiz Ruffato afirmou que não há como discutir a produção de cultura sem falar em educação. E considerou alarmante a postura de renúncia do intelectual em intervir na sociedade.

O evento foi encerrado com a mesa de discussão “Arena livre: para onde vamos?”, uma tentativa de diagnóstico dos rumos da literatura brasileira. A mediação foi da poeta Daniela Osvald Ramos, e também esteve presente na mesa o escritor Nelson de Oliveira. 

A poeta Andréa Catrópa voltou ao tema internet alegando que qualquer forma de veicular a literatura é válida e pode legitimar. Ainda disse que o poeta deve fugir de duas armadilhas: se contentar com a euforia dos blogs e fechar os olhos para a crítica.

Eu não sou poeta, também não sou profeta.
(Ivan Marques)

Focando no tema da mesa, “Para onde vamos?”, o jornalista Ivan Marques analisou que nos anos 1950 essa dúvida parecia impensável no Brasil e que nos anos 70 havia “poetas tão diferentes com algo que os unia de maneira espantosa.”

Ainda segundo o jornalista, mesmo que a cena literária se mostre viva, há não só uma ausência de projeto, como também um sentimento de nostalgia em relação a um projeto coletivo. Existiria hoje um espírito de conciliação, “como se o valor principal fosse a negociação.” Ivan tem seu resumo contundente da cena literária atual: parece haver um vazio e, paradoxalmente, ao mesmo tempo se desenrola uma cena rica e efervescente.

São Paulo voltou a ser a terra da garoa por um final de semana! E, se Mário de Andrade escreveu no poema Indiferença (Paulicéia Desvairada, 1922) sobre “Bofetadas líricas no Trianon…” me vem agora à cabeça algo como “bofetadas líricas na Praça Roosevelt…” Este vazio, anomia ou melancolia na cena literária merece uma educada, mas pertinente: FLAP!

* Sugestão para o significado da sigla FLAP dada pelo professor e poeta Marcos Siscar.


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